quarta-feira, 26 de maio de 2010

O narcótico virtual da individualidade

          Há pouco mais de 30 anos, os livros eram os principais meios de pesquisa disponíveis no mundo. Com a disseminação dos computadores, essa realidade tornou-se uma opção. De maneira antes impensada, surgiram aparelhos que, através de processos lógicos e aritméticos, fornecem informação e conhecimento instantaneamente. Rompendo as fronteiras geográficas e interligando o planeta, pode-se dizer que o conhecimento técnico expandiu seus horizontes, entretanto, acompanhado de um processo de desumanização.
         Parafraseando o pensador alemão Max Horkheimer, em “Eclipse da razão”, essa idéia é intrínseca às relações de produção capitalista. O homem contemporâneo, preocupado em garantir o desenvolvimento tecnológico, coloca-se num segundo plano e é cada vez mais atingido pelo processo da Indústria Cultural. Segundo Horkheimer e Theodor Adorno, esta é a causa da homogeneização dos comportamentos das pessoas. Seria este o percurso feito pelo ser humano em busca da automatização em detrimento de um modo de vida não salutar?
         Se sim, a conseqüência possivelmente desacataria uma evolução contínua partindo do homem. Em contrapartida, houve vantagens. Em 1991, com a criação do “world wide web”, a propagação dos acontecimentos por meio da internet facilitou as relações políticas, econômicas e pessoais das sociedades. É, atualmente, o principal difusor dos eventos que ocorrem no mundo. Em 2009, a repressão dos iranianos que se manifestaram contra a reeleição do aiatolá Mahmoud Ahmadinejad à presidência, só foi exposta por causa do microblog Twitter. Isso demonstra um dos inúmeros benefícios do mundo virtual: a possibilidade de emitir para o mundo um grito de revolta, um sinal de vida num pequeno ponto do planeta.
         Um questionamento plausível perante o sucesso desse acometimento: Qual a relação entre a vantajosa internet e o processo de desumanização de Horkheimer? A primeira produziu a narcotização dos valores individuais e da razão crítica, uma vez adquirida com a obtenção de um pensamento pronto e uma “ideologia de massa”. Esse panorama torna compreensível a colocação de Heitor Cony: as vantagens da internet são indispensáveis, porém agridem a evolução genuína do homem, “o seu erro... a sua glória”.


Proposta: A partir da leitura do fragmento, produza uma dissertação.
Fragmento: "Insisto em comentar as vantagens e desvantagens do mundo virtual. Não perderei tempo em lembrar as vantagens, elas entram pela cara da gente, tornam-se dia-a-dia mais indispensáveis e mais fáceis de manuseio. Fico então com as desvantagens, e uma delas me remete ao processo de pensar, de refletir. Desde que Aristóteles criou o método peripatético, os melhores pensamentos da humanidade vieram quando filósofos, inventores, matemáticos, músicos e poetas obedeciam aquele processo de pensar caminhando, ou caminhar pensando. Beethoven passeava na floresta quando voltou correndo, com a Sexta Sinfonia inteira na cabeça. Kant era metódico, todos os dias saía para seu passeio à tarde, os vizinhos podiam acertar o relógio pela hora em que ele percorria o bosque de Königsberg. E foi assim que ele criou seu monumental sistema dedicado à razão pura. Strauss compunha suas valsas passeando pelos bosques de Viena e Anchieta escreveu seu poema nas areias de uma praia. Ficar "plugado" a uma tomada pode ser prático, mas não é criador....... Viver "plugado" a uma corrente de pessoas e informações pode ser divertido e útil. Mas agride o que o ser humano tem de melhor e mais insubstituível: o seu gosto, o seu erro, a sua miséria e sua glória".
(Cony, C. H - Folha de São Paulo, 22/08/2000)

2 comentários:

jefhcardoso disse...

Pricilla, não deu para ler o fragmento, as letras estão apagadas.
Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com

jefhcardoso disse...

Priscilla, ficou muito bom. Fico feliz que tenha tomado por bem o meu comentário. Abraço e até breve, menina!

Jefhcardoso

Obs. desculpe pelo 's' que faltou no primeiro comentário. (sorrio)

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